25 de ago de 2009

KAFKA À BEIRA-MAR



Ofereceram-me este livro de Murakami em Abril de 2007 - e se vos causa surpresa por só agora o ter lido (ou se não causa de todo pela minha implícita estupidez de ser tão lento leitor pelo facto de ter levado 2 anos e meio a ler um livro). Eu explico. Chegou-lhe a vez no meu monte de leitura, no meu pináculo de livros estacionados junto à cama, empilhados montando uma mesa de cabeceira. Vejo de seguida o Príncipe de Maquiavel, que agora releio.

Kafka à Beira Mar, é um dos ovnis mais saborosos que li ultimamente - o último que retenho que tenha lido e que era assim tão complexo e tortuoso terá sido o Fight Club de Palahniuk. Murakami constrói um labirinto de história que ao invés de correrem paralelas como parece inicialmente - convergem em apoteose de final de filme trágico. As duas personagens centrais - que nunca se tocam mas se vão aproximando em rota de colisão sem colidirem directamente mas provocando uma erupção de tragédia grega - Nakata e Kafka, vivem um rol de acontecimentos e provocam reacções em cadeia que lhes assistem aos propósitos que são para eles próprios desconhecidos.

O livro é um Lord of the Rings, este livro é uma verdadeira tragédia grega, é a epopeia de Ulisses escrita por Homero e reescrita por Murakami (ele próprio que estudou teatro clássico) e onde se revelam diversas constantes na obra do escritor nipónico: a música clássica e o jazz (Murakami foi dono de um bar de Jazz), o teatro e a literatura clássicas europeia e japonesa e o dono de bar solícito e cheio de ensinamentos. As referências musicais e literárias multiplicam-se e servem o misticismo desenvolto de Murakami num romance que chamaria mais ocidental que verdadeiramente japonês - mas que não perde essa vertente encantatória do país do Sol nascente.

A minha teoria epopéica é reforçada pelas personagens que vão surgindo e interagem com os heróis trágicos Nakata e Kafka orbitando entre o fantasmagórico e o corrente, o sobrenatural e o natural, o inacreditável e o existente , desde a sua génese até ao ocaso de um e a realização do outro: a prostituta deslumbrante e hipnótica em jeito de sereia, o louco escultor Johnny Walker que degola gatos por desporto, os camionistas filosófos, a figura paternal e mágica do Coronel Sanders que me lembra um duende, o solícito Hoshino, a doce e trágica Saeki que surge duplamente real e em espírito, o culto regedor da biblioteca de literatura japonesa clássica e transexual Oshimo a que junta a notável capacidade de conversar com gatos de Nakata e sua busca da Pedra da Entrada e a oportunidade de Kafka em lidar com situações extremas como a do espírito de Saeki adolescente, o retiro da montanha isolado de Oshimo e o reduto num universo paralelo guardado por dois militares desertores.

O livro poderá a tempos surgir monótono e irregular mas surgirá sempre algo que nos atira para as páginas seguintes e se de facto a história se prolonga em páginas não é de difícil consumo em 2 semanas de leitura - são mais de trezentas páginas aceleradas e carregadas de complexidade banhadas por toneladas de referências da cultura popular japonesas.

Leiam - valerá a pena. As cenas de sexo são intensamente gráficas e se o romance parecerá disparatado, não o é mais do que a Odisseia, a Eneida, a Ilíada e os Lusíadas a seu tempo.

Lido entre Wien e Lisboa.

Link : http://en.wikipedia.org/wiki/Kafka_on_the_Shore

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