1 de jun de 2008

667, O VIZINHO DA BESTA

Esta pequena longa - em antecipada redundância - do meu conterrâneo Eduardo Condorcet, recorda-me Ingmar Bergman por inúmeras razões - pelo jeito teatral em que surge a disposição das personagens no espaço, pelos incómodos silêncios que se prolongam, pela crescente e ruidosa antipatia que se vai instalando entre os quatro elementos da família que nos é apresentada.

Seguindo a lógica da numerologia 666 seria o número da besta, mas este 667 que é o nosso vizinho do vizinho 666, é o tal que se vai tornando em besta - enlouquecendo-se e levando com ele toda a família e ainda tentando puxar-nos também para esse desespero de voyeur com que vigia incessantemente o tal vizinho que nunca vemos (imaginamo-lo pelos comentários do nosso 667). O pai é perturbador, vai-se despedaçando à nossa vista até à combustão final - a Vera é como se fosse um outro Donnie Darko, a incómoda tensão sexual entre pai e filha, que engravida, o filho que se vai instabilizando, a mãe que se dilui em mecanismos cada vez mais automáticos, perdendo-se.

667, O Vizinho da Besta é peça e a peça é peça realmente (os actores estão mais acostumados ao palco e esta produção era para um palco verdadeiramente). Vejam - ficarão surpreendidos por este cinema português mais do que independente - independente mais que perfeito. Gosta-se.

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