11 de nov. de 2008

W.



W. não diaboliza nem elogia o ainda e pelo segundo mandato presidente americano, George W. Bush (vi o filme uma semana antes do feliz acto eleitoral que se me afigura histórico para a história do mundo no contexto em que nos encontramos). Não o critica nem realça traços especiais, antes deixa que Bush se ricularize pelo que é ou pelo que não é ou ainda pelo que pretende ser, numa magnífica interpretação de clone de Josh Brolin (já o tinha demonstrado em Esta Terra Não é Para Velhos).

O último filme do realizador da trilogia do Vietname (Nascido a 24 de Julho, Platoon - Os Bravos do Pelotão e Quando o Céu e a Terra Mudaram de Lugar) e de outros biopics sobre Presidentes (JFK e Nixon, Comandante não o é) não é de todo elogioso perante Bush Filho mas não na medida em que se coloca como crítico - nada disso, longe disso - mas sim na perspectiva de que precisamente pelo realizador não tomar posição assumindo-se como documentarista num biopic por si construído sobre um presidente decadente e já cessante, marca este mesmo como o fantoche controlado por um gabinete ditatorial que vai controlando a seu gosto os destinos do mundo cuja potência sobre a qual reina foi construindo enquanto a esboroa.

Essa é a maior contradição americana - construir enquanto de destrói é a melhor maneira de simplificar o que tem sido a regência americana em assuntos externos que neste filme encontramos bem demonstrada. Há que ver o filme para compreender melhor este monstro simpático, este dub-ya; assume-se interessante para debatermos um pouco mais muitas das questões que nos afectam e também nos desperta para nunca cairmos dormentes perante ameaças extremistas e intolerantes sempre presentes (mesmo num mundo ainda considerado maniqueísta e considerando-o como tal - ameaças até do nosso lado da barricada).

http://wthefilm.com/index2.html

visto no Cine Monumental, ao Saldanha LX em companhia do MAL

BERLIM




Julian Schnabel tem das obras mais consistentes que reconheço em cinema e tenho uma certa cautela em etiquetá-lo completamente como realizador – ele é sobretudo um esteta e, como Anton Corbijn (o tal do magnífico Control) deambula em áreas artísticas eminentemente assessórias do cinema: este fotografia, aquele pintura (tem trabalhos expostos no Berardo).

(...)

ler resto da crítica na TAKE n9 em http://www.take.com.pt

COMANDANTE



A figura charmosa do Ditador é tão atractiva para quem não é directamente reprimido que alimenta inúmeras peças de cinema de qualidade diversa, exterior à definição de ditador que cada um tem consigo. Ditador é alguém que dita, que controla, que se guia pela sede pelo poder e que se prolonga nele, sobrepondo-se a outros. E assim é Fidel ditador, independentemente das simpatias partidárias.

(...)

ler resto da crítica na TAKE n9 :: http://www.takecom.pt

6 de nov. de 2008

007: Casino Royale & Quantum of Solace


Anteontem vi o dvd do Casino Royale.
Gostei imenso e fiquei quase 24h em pulgas para ver a sequela Quantum of Solace - o título significa (+/-) "uma pequena quantidade de conforto" - nao foi bem isso que senti, mas quase, pois não fiquei entusiasmada como com o anterior...
Mesmo assim foi interessante "inserir-me" um pouco mais na vida deste agente secreto (creio que antes só tinha visto um filme do 007!).
Gostei de ver o Daniel Craig na pele de James Bond, assim como a Judi Dench no papel de M.
A bond girl do Quantum of Solace (Olga Kurylenko) não está tão presente como a do Casino Royale (Eva Green) mas ambas estão bem nas personagens que representam.

Creio que agora vou ali até ao clube de vídeo alugar todos os outros filmes do 007, pois parece que me tornei fã :)

5 de nov. de 2008

Leitura "in progress"

A minha professora de espanhol emprestou-me um livro de contos de um escritor espanhol.
Li o primeiro conto e achei-o tão interessante que resolvi partilhá-lo aqui.
Começar aqui. Continuar aqui. Acabar aqui.
E comentar aqui :)

20 de out. de 2008

O Crime do Padre Amaro



Li o livro há já alguns anos por recomendação de um amigo. Ontem à noite vi o filme, emprestado por esse mesmo amigo, e onde esse amigo representa um dos polícias (boa, Liminha!).
Corrijam-me se estou enganada, mas parece-me que é o primeiro post de um filme português no nosso blogue. Assim sendo, se é facto que não costumo ver filmes portugueses, vocês provavelmente também não. E fiquei deveras surpreendida com a qualidade dos actores! Nicolau Breyner, Cláudia Semedo, Hugo Sequeira, achei estes 3 realmente muito bons!
Do argumento nem vale a pena falar. É uma história do Eça, que tal como todos os grandes autores não se perde com o passar dos séculos. Contarmos uma história que seja actual passados muitos anos sobre ela, não está na caneta de qualquer um. O assédio sexual e a ausência de castidade dentro da Igreja Católica, a gravidez adolescente, o aborto, a mentira, a homossexualidade, a promiscuidade, a violação, mas também a cumplicidade e a lealdade... E uma coisa que acho muito interessante, que é a repetição nas nossas vidas, daquilo que vemos e temos em casa. Aquilo que os nossos pais nos mostram, a sociabilização primária. Como a Amélia repetia a vida dela ao exemplo da mãe e fruto da violação de um Cónego mentiroso e muito sacaninha.

19 de out. de 2008

Por que é que os homens nunca ouvem nada e as mulheres não sabem ler os mapas de estradas


Allan e Barbara Pease são um casal dedicado a assuntos da comunicação humana. Neste livro apresentam-nos algumas explicações sobre o porquê da relação homem/mulher ser como é: complexa.
Foi com base em estudos científicos, médicos, psicológicos e sociológicos (na grande maioria por universidades europeias) que este casal escreveu este livro, e por isso, mesmo que o título leve o leitor a pensar que se trata de mais um cliché, aconselho a ler primeiro o livro e depois tirar as suas conclusões.
Quando me ofereceram o livro, a indicação foi a de não ler o livro de seguida, mas sim, ir lendo de forma aleatória, uma página. A verdade é que este livro dá para fazer tal coisa, pois a maneira como foi organizado, dá para o ler até mesmo de "trás para a frente". É constituído por capítulos onde se podem encontrar parágrafos (que raramente ocupam mais do que uma página) relativos a uma certa questão. E como em cada questão aparece uma breve descrição do seu contexto, o leitor não se perde se optar por uma leitura mais baralhada. Eu pessoalmente, gosto de começar no princípio e levar o livro até ao fim, sem grandes interrupções. E o facto é que este livro prende a atenção do leitor até à última página pois aborda questões interessantes como: Porque tem as mulheres necessidade de falar?; Porque falam os homens consigo mesmo em silêncio?; Porque são as mulheres indirectas e os homens directos?; Porque saberão os homens para onde vão e porque as mulheres não sabem ler os mapas de estradas? E ao que parece a resposta está pura e simplesmente na química e na genética.
Por várias vezes os autores chamam a atenção para uma questão. Obviamente que nem todos os leitores vão conseguir identificar-se nos textos a si ou ao seu/sua companheiro/a. Os estudos foram feitos a um grupo de pessoas que não representam toda a espécie humana, obviamente, mas que podem representar com um bom grau de aproximação ao que se poderá chamar "comportamento médio" (em média, as mulheres agem de uma forma e em média os homens agem de outra forma).
Ao ler o livro, deparei-me com dicas interessantes que o homem e a mulher poderão aplicar para aperfeiçoar a comunicação entre si. E a verdade é que muitas já eu as utilizava quando era directora de obra e tinha de gerir equipas de trabalho. Desde cedo percebi que tinha de comunicar de maneira diferente àquela que estava a habituada, pois o meu "público" passara a ser de um só tipo: masculino.
A quem se aventurar à leitura deste livro, e em particular em alguns parágrafos, parece que pegaram na sua vida privada e a escancararam num texto público.
Bom, e mais não digo! Leia e descubra você mesmo do que falo!

11 de out. de 2008

Lord of War


No último ano os filmes que tenho visto têm servido para me questionar sobre muita coisa. A cada filme que via, despertava para mais um dos problemas que assombram a vida de qualquer ser no planeta Terra: guerras, crises económicas, fome, poluição, miséria, tráfico de armas, tráfico de pessoas,...
E filme a filme (livro a livro, conversa a conversa, imagem a imagem, etc.) comecei a tomar consciência de que a verdade que conheço, afinal nada significa. E que afinal os vários problemas que me desinquietam a mente, não são mais do que um só problema, constituído pelos vários problemas (que se relacionam entre si).
Não consigo escrever sobre o filme que aqui vos falo. Nao me saem as palavras. Porque tudo me parece demasiado pequeno perante a vida real.
O pensamento e a reflexão sobre certos filmes dói tanto, que no fim deste, perguntei apenas: "Não temos por aí nenhuma comédia romântica para ver e relaxar... E esquecer a realidade...?".

Lord of War, como se costuma dizer: Um filme a não perder!

Mais um filme que me vem mostrar que afinal eu já não posso salvar o mundo. E assim, já não quero salvar o mundo. Apenas posso/quero construir o meu mundo. E poder fechar os olhos quando a imagem não me agrada... Pois muito mais que isso não poderei fazer pelo mundo.

9 de out. de 2008

Campanha WWF

Recebi este vídeo por mail e achei por bem partilhá-lo.

Dá que pensar, não?...

8 de out. de 2008

FUNNY GAMES (1997)



Este é um dos filmes mais aterradores a que assisti nos últimos tempos e será um dos mais intensos em terror psicológico, em horror de entre portas, em susto de momento e se o vi entre cem pessoas no exterior, pelo menos isso serviu-me para refrear o temor ~ eu, imaginativo eu, que me assumo como sugestionável imaginando sombras e coisas esperando por mim no escuro.

Vejo neste filme de Michael Haneke, na sua versão original austríaca de 1997 que seria refeita 20 anos depois nos Estados Unidos, referências e proximidade a outros tais como The Shining, Scream, Psico, Rosemary's Baby, Misery, Talented Mr Ripley ...

O filme envolve-nos numa atmosfera claustrofóbica, toma-nos de assalto, coloca-nos vulneráveis clamando impotência! A ver ~ previno que o susto pode ser fatal.

Visto no
CineLençol
Alameda do
MAL
com audiência de + de 100 pessoas.

Objecto quase

Objecto Quase é um livro de contos de José Saramago, editado pela primeira vez em 1978.
Dos 6 contos, o que mais me deixou agarrada ao livro foram Embargo e Coisas. Também gostei do conto Centauro, mas os outros têm uma escrita que é o que me fascina no Saramago: algo que acontece sem lógica (aparente), e que nos agarra às palavras enquanto não descobrimos o porquê de tal acontecer! É fantástico mesmo!

Acrescento uma passagem do conto Coisas que achei cómica pelo facto de ser surreal:
"Tempo houve em que o processo de fabrico tinha atingido um tal grau de perfeição, que os defeitos vieram a tornar-se raríssimos, a ponto de o governo compreender que não era conveniente retirar aos cidadãos utentes o gosto cívico e o prazer da reclamação."

O CHEIRO DO RALO

Selton Mello é dos indivíduos mais interessantes e versatéis no cinema brasileiro da actualidade - vide tb o Tarantino's Mind neste blogue - e corre por aí que lutou afincadamente pelo papel de Lourenço neste hilariante filme de Heitor Dhalia de 2007.

Ele interpreta o demente e escatológico dono de uma loja de produtos usados atormentado pelo cheiro (vindo) do ralo da casa de banho que utiliza e que dá porta com porta com o seu gabinete. A cada pessoa que recebe Lourenço vê-se na necessidade - após o desconforto demonstrado por quem ali chega a vender, a vender-se - de justificar o cheiro que dali se solta.

Marionetando as pessoas, manejando as suas crenças e humilhando-as defecando-se, este Lourenço confunde-se ele próprio com esse cheiro que ele repetidamente rejeita e justifica - ele que terminou bruscamente o noivado com a noiva entretendo-se onanista defronte da televisão com programas de aeróbica 'Aye, aye!' e ele também que persegue carnal a bunda da rapariga da lanchonete que ironicamente o obriga a frequentar diariamente a latrina cujo cheiro o assola 'Eu dava tudo para ter essa bunda'!

O Cheiro do Ralo recorda-me os filmes de Guy Ritchie na sua essência suja e no descarnar da fealdade humana, é satírico e mordaz e ao se aproximar tanto ao fundo - vísceral - quase que tapamos o nariz com o cheiro desse ralo, enquanto aspiramos o ar fétido que julgamos cheirar, pela boca, de tão hilariante se revela.

Excelente filme ou como se diria por lá: isso aqui é de cu de rôla! A ver, rever, ver.

Visto nas Loff Sessions na Sede do MAL , Lisboa
Depois revisto no Pátio Fradique, Lisboa, CineLençol do MAL
Web OCheiroDoRalo

Palombella Rossa



Nunca um filme me disse tanto. Nunca senti tanta cumplicidade em todos os pormenores, em todas as cenas. Parecia que estava a falar para mim.
O Palombella Rossa passa-se praticamente dentro de água, na piscina do Acireale, na Catania, Sicília. Michele Apicella, interpretado pelo realizador, Nanni Moretti, perde a memória num acidente de carro e tenta reconstruir a memória do que é durante um jogo de pólo aquático que dura uma tarde e uma noite (o que parece ridículo porque nenhum jogo dura tanto, mas foi porque o húngaro partiu a baliza e tiveram que a substituir).
O que lá tinha de mim?

PÓLO AQUÁTICO - As viagens, os autocarros, os restaurantes, os bolos que passam de mão em mão pela equipa, as palestras do treinador. Para nós era impossível estar tão caladas a ouvir o treinador como aqueles estavam, porque uma dúzia de mulheres enérgicas juntas raramente conseguem silêncio. Mas quando conseguem o silêncio marcam golo :)

AS PALAVRAS - Le parole sono importanti. Dois estalos (no filme, porque na rodagem foram mais!) que o Michele dá à jornalista por esta falar mal: cheap, kitsch,... E quem fala mal, pensa mal, vive mal.

COMUNISMO - Ho paura. Michele não consegue fazer um passe para o contra-ataque da equipa porque tem medo. Tem medo de ir para o centro (do campo/da vida política) porque é fundo. Che significa essere comunista? Numa altura de crise ideológica da esquerda italiana, ele tenta redescobrir o que é ser comunista. É ser igual mas ser diferente. É ser católico? Ou ser crente? Defender as massas? Defender a humanidade? Defender o sindicalismo? É ser um movimento de revolução?
Engraçado como me lembrei de uma ligação entre o pólo e a política que se passou comigo. Uma vez, num treino com um treinador de outra equipa, em experiência - ele mal me conhecia - me diz: «- Tu para seres assim revolucionária só podes ser bloquista!» Também... também é ser revolucionária.

ITALIANO - Várias vezes voltava as cenas alguns segundos atrás para ouvir novamente as frases em italiano e decorá-las. Me manca tantissimo parlare italiano.

NÁPOLES - A vista da piscina junto ao porto de Nápoles levou-me há quase 10 anos atrás (!!!) quando em 1999 lá vivi. O mar era dos poucos locais onde era fácil encontrar paz.

Normalmente gosto que passe muito tempo até rever (ou não, caso não valha a pena) um filme. Veria o Palombella logo à noite outra vez.

30 de set. de 2008

Eminente e iminente

Para inaugurar o nosso «Português Perfeito», trago-vos o iminente e o eminente. Praticamente os dizemos da mesma forma e querem dizer coisas tão diferentes. Assim sendo, sem mais complicações ou demoras:
IMINENTE - pendente, que ameaça suceder de um momento para o outro
EMINENTE - alto, sublime, superior
O terramoto político está iminente.
O eminente Gabriel Garcia Marquez publicou mais um livro :)

25 de set. de 2008

ROCKnROLLA


RocknRolla mostra-nos Londres e as tramóias e jogos de corrupção que várias pessoas usam para alcançar os seus objectivos. Um "simples" assalto acaba por dar azo a muitas peripécias, algumas bem cómicas, e a história tem um desfecho surpreendente.
Não posso contar muito mais porque este filme só visto mesmo! E eu vou ter que o ver uma segunda vez, porque, com sotaques tão fortes, metade passou-me ao lado. :)
Mesmo assim gostei imenso da história e da forma como foi contada, da imagem, dos actores [fiquei de olho nuns quantos ;) ].
Li algures que este filme do Guy Ritchie não era tão bom como o seu Snatch. - eu não vi o Snatch mas então calculo que seja fantástico!

22 de set. de 2008

GOLDEN GUIDE

É uma revista gratuita de periodicidade mensal que vai já no seu segundo ano, número 13 e que se debruça sobre diversos temas escapistas como (e retirando literalmente do que se revela na capa) de arte | cultura | eventos . restaurantes | vida nocturna . lojas | desporto.

Ou seja, epicurista ao expoente máximo e em revista exposto, o meu género de publicação. Pena é que na Golden Guide seja tudo tratado e revelado duma maneira demasiado comercial, com excesso de marketing e umbiguismo pedante que não me agrada e que me faz pô-la de lado imediatamente quando a vejo por aí, solta em cafés, bares e lojas por LX.

Não encontrei nem site nem foto - partilho-a para não a omitir.

16 de set. de 2008

101 Reykjavík


101 Reykjavík fala-nos de Hlynur (Hilmir Snær Guðnason), um rapaz de 30 anos que vive em casa da mãe e que passa os dias a a ver filmes porno, surfar na net e beber nos bares de Reykjavik, capital da Islândia. Isto até ao dia em que a mãe convida a espanhola Lola (Victoria Abril), sua professora de flamenco, para passar o Natal com eles. Lola, sempre provocadora, questiona Hlynur e espicaça-o para mudar de estilo de vida. Acontecimentos inesperados fazem Hlynur questionar-se a si e tudo o que o rodeia e leva-nos a um fim surpreendente.
Este filme bem inteligente é uma comédia fantástica a não perder! Adorei!

10 de set. de 2008

Perfekt Deutsch

Pela primeira vez, apresento-vos neste blogue uma revista. Aliás, a única que ultimamente me tem acompanhado por estas terras germânicas: Perfekt Deutsch.
É uma revista mensal direccionada a quem tem interesse em aprender a língua alemã e que se encontre a residir na Alemanha. O público alvo é, portanto, o imigrante.
Tem por objectivo apresentar textos de fácil compreensão comparativamente aos jornais habituais nas bancas dos quiosques, ajudando quem está a aprender a língua alemã a ter contacto com informação sobre o mundo que nos rodeia, mas de uma maneira menos desmotivante, como acontece quando ouvimos o telejornal e não percebemos o que dizem (de tão rápido que falam e até pelo vocabulário que usam).
Para quem já viveu uma situação parecida, viver num país estrangeiro cuja língua se está a tentar aprender, sabe perfeitamente o quanto desmotivante pode ser, não nos sentirmos verdadeiramente integrados na sociedade do respectivo país de emigração. Uma revista que seja feita para Nós (sim, sou emigrante!) é uma maneira de nos sentirmos acolhidos e principalmente compreendidos!
Os textos abordam temas actuais nacionais e internacionais sobre economia, cultura, educação, turismo, etc.. Enfim, todos os temas que se pode encontrar num jornal "normal" mas redigido para Nós. Ao lado de cada texto existe sempre um quadro explicando as palavras do texto de difícil compreensão. Para além dos temas que já mencionei dão também informações úteis sobre políticas de controlo de imigração, que do meu ponto de vista, costumam ser claras, sucintas e úteis.
É acompanhada de exercícios gramaticais, de argumentação e até de simulação de situações de rotina, como p.ex., a ida a um médico.
Podem também oferecer como "brinde" uns pequenos glossários (de vocabulário mais "básico") acompanhado pela respectiva ilustração (p.ex.: vestuário, utensílios de cozinha, etc..).

De várias acções desenvolvidas na Alemanha para ajudar na integração dos imigrantes na sua sociedade, várias iniciativas são de louvar. Inclusivamente esta revista. Quando tive conhecimento desta revista pensei: e o que se desenvolve em Portugal para ajudar os imigrantes? O que será ser imigrante em Portugal? Sentir-se-ão bem acolhidos ou muito pelo contrário, apenas marginalizados?
Eu não sei o que é ser imigrante em Portugal, mas começo a perceber o que é sê-lo na Alemanha. E dou por mim a pensar naqueles que escolheram Portugal como "país das oportunidades" e acabo por... Não saber o que pensar.
Claro que ser emigrante tem os seus "momentos menos bons", mas no geral, o português é muito bem recebido por estas bandas! Pelo menos em Hamburgo! Misturamo-nos, damo-nos a conhecer, participamos, e principalmente não criamos problemas.

Aqui fica então uma perguntinha: para quando a revista "Português Perfeito"?

8 de set. de 2008

Caramel

O ambiente em que se desenvolve a história é basicamente feminino. Temos várias histórias que sendo diferentes entre si, com a sua respectiva protagonista, têm algo em comum: a cumplicidade e o apoio que as personagens apresentam entre si.

As poucas personagens que o filme tem são portanto principais: a dona do salão de beleza que tem uma relação amorosa com um homem casado e que espera pelo dia em que finalmente ele se separe da mulher (que nunca irá acontecer); uma lésbica que se encanta por uma cliente, casada; uma noiva que já não é virgem e que tenta resolver o seu problema através de cirurgia; uma vizinha, costureira, com os seus 60 anos que tem a seu cargo a sua irmã mais velha que empata todas as suas relações amorosas; uma cliente, actriz, também com os seus 50 anos que se recusa a envelhecer;

"Caramel" (o caramelo utilizado no método de depilação deste salão de beleza) representa assim o elo que as une, num momento onde partilham as suas alegrias e as suas angústias num ambiente de intimidade e de cumplicidade.

É um filme que retrata um Líbano diferente do que estamos habituados a ver.
Qualquer assunto relacionado com a sexualidade das personagens é tratado com muita delicadeza, mas que não deixa de conseguir transmitir ao público sentimentos como a paixão, amor e cumplicidade.
Os sonhos, as frustrações, as desilusões e esperanças que estas personagens (libanesas) vão revelando ao longo do filme, podiam ser os de qualquer mulher em qualquer lugar do mundo. Por muito distante que esse ponto seja do nosso país, mesmo com tradições e culturas diferentes, todas nós queremos o mesmo: ser feliz.

Nota: O filme foi dirigido pela própria actriz Nadine Labaki (que interpreta o papel de dona do salão), e foi apresentado no Festival de Cannes de 2007.

5 de set. de 2008

CARTAS A UM JOVEM POETA


Chegou-me às mãos um pequeno volume de Rainer Maria Rilke intitulado Cartas a um Jovem Poeta - via dádiva de amigo.

Já tinha lido outros volumes de Rilke - incluindo peças dedicadas a Rodin, obras de Rilke com ilustrações desse e ainda trechos da biografia dedicada a esse portento de escultor de quem foi secretário, mas foi este livrinho que me atingiu agora.

Este pequeno livro é recheado de belas observações que servem a Rilke para conduzir um jovem poeta que o tinha contactado para que o medisse (e aconselhasse) e que nos serve para perceber melhor o pensamento do escritor e a sua relação com as palavras escritas 'se sentir que pode viver sem escrever, não escreva'.

As cartas são uma colectânea do que melhor poderá ser transmitido a quem (quer e deseja) respira(r) literatura, palavras, textos, histórias, contos, poesia, ensaio e onde o autor renuncia aos críticos quase agressivamente e em que aponta a infância - os episódios de infância - como o melhor princípio, a mais recheada arca, a mais bem lembrada memória, o perfeito campo de colheita para as obras seminais de quem se quer escriba. Belo.

SUPERBAD

Nunca tinha eu visto um título realmente tão apropriado para um filme - esta peça aqui é fielmente revelada pelo titulado em letras ao carregar play: Superbad! Esta coisa é SuperSuperBad e nem me apetece colocar link ou acrescentar seja o que fôr, perder tempo a digitar uns poucos mais caracteres? Acha! Não! Um filme mau rotulado de diversão tem que servir pelo menos para um Domingo à tarde, e este nem os requisitos de Domingo de manhã preenche. Adiante.

Visto em reclusão intencionada - LX é feia quando não é desejada realmente.

O SEGREDO DE UM CUSCUZ

Nem vale a pena discutir a triste adulteração do título na sua passagem para português - até porque nem é das mais falhadas e o filme recompensa grandemente o que se perdeu no traduzido titulado.

O Segredo de um Cuscuz é um filme belíssimo de Abdel Kechiche que conta com a presença de inúmeros actores amadores que se representam em perfeição - deixam-se estar, vão ficando, deixam-se filmar. É uma cumplicidade tremenda que se estabelece entre nós e esta família multiracial e problemática como todas - paralelamente ao correr do grande rio da história principal (a luta de Habib em montar um restaurante num barco, ajudado pela mulher que deixou e apoiado pela mulher com que está), outros pequenos afluentes existem, diversos apêndices núcleos familiares com a sua espantosa riqueza e realismo das personagens. Arrisco em chamar-lhes não de personagens ou actores vestindo um boneco, mas pessoas, gente verdadeira, real.

Este filme é absolutamente mágico - vai do luminoso ao escuro, do absoluto ao vazio - mexemo-nos na cadeira tanto impotentes como sorrindo, pontapeia-nos com o feio que existe na vida como também nos embala com o que de mais extraordinário pode ser contado. E é tudo filmado próximo, o realizador não nos dá tréguas, nem tréguas a estas pessoas que se deixaram filmar no seu quotidiano - este filme é um documentário de câmara solta na mão, gesticulando perante as faces, os trejeitos, os defeitos e as imperfeições de quem lhe surge pela frente.

O ternurento momento da refeição em família onde se partilha o cuscuz feito pela anciã é o tempero da vida. Já a catarse da Julia, mulher traída e só um destroço, que grita chora se contorce para a tela durante mais de uns longos 10 minutos obriga-nos a tapar a cara, a afastar o olhar, a pensar em sair dali, a evitá-la. É um desconforto atroz que sentimos no que será possivelmente um dos momentos mais - simultaneamente - duro e intenso do cinema. A dança do ventre empresta-nos a festa da alegria após a dura batalha para erguer o restaurante (através de inúmeras barreiras burocráticas e obstáculos raciais - falamos de um árabe em França) até ao trágico final.

O filme é longo, são 151 minutos de montanha russa sentimental, experimentamos e compartilhamos de tudo o que se passa em tempo real à nossa frente. É como se nos vissemos, é como se nos pintassem, nos documentassem. Este é um magnífico documentário da vida -´e é para mim o melhor filme do ano.

Visto no cinema King, LX - um belo par que se acompanhava.

3 de set. de 2008

FREESURF MAG

FreeSurf é a primeira revista gratuita dedicada ao surf em Portugal seguindo o modelo da original hawaiana e replicando para Pt, com os ajustes necessários à nossa realidade, a revista que se multiplica um pouco por todo esse mundo de países fortemente aficcionados do desporto de beira de praia, ondas e pipes.

O site é muito fraco graficamente e muito pouco intuitivo; o suporte escrito tem bom conteúdo, contando com excelentes artigos não tão só de surf como de generalidades políticas e sociais (o que a abre a um público mais amplo) mas peca também pela pouco apelativa aparência gráfica. Mesmo com todos os downsides, é fantástico receber esta publicação - que vai já no 3º número, foto ao lado.

A periodicidade é bimestral e recolhe-se por aí, da Ericeira ao Supertubos, de Santa Cruz ao Amado, da Praia do Norte à Arrifana, de Sagres a Peniche, do Baleal a Ribeira de Ilhas - dos bares do Bairro Alto às lojas de surfwear.

CONTROL

Não poderia existir melhor homenagem ao grupo e ao homem-rapaz por detrás da banda que imortalizou temas como Disorder, Love Will Tear Us Apart e, my personal favourite, Transmission. E essa dedicatória teria que surgir como aqui é apresentada, a p&b, opção do fotógrafo realizador Anton Corbjin que pretende assim partilhar o seu imaginário de adolescente em que esta banda reside em cores cinza e a sombreados.

A banda é Joy Division e o homem Ian Curtis, brilhante e depressivo em toda a sua magnitude de adolescente (naturalmente) amargurado. A sua purga era a música e a banda aqui metralha riffs de guitarra frame a frame enquanto acompanhamos a curta vida de Curtis decaindo após cada ataque de epilepsia.

O filme é brilhantemente interpretado e filmado, este filme é perfeito em tudo! Sam Riley como Curtis está soberbo e em conjunto com os restantes actores que representam a banda, encarnaram mesmo nos Joy - nos momentos em que entra a música são eles que a tocam, eles que a cantam, eles que a levam, eles que se agitam, eles que conduzem, eles que nos encantam. E a personagem do Toby Kebbell está deliciosa como manager do grupo!

O filme é um biopic assumido de Curtis e da sua absoluta necessidade de CONTROLe sobre a sua doença e a sua vida. E a nós sobre a nossa.

E a realização, a realização! É do melhor que tenho visto e terá a ver certamente com o percurso de Corbijn: fotógrafo reconhecido que chegou a colaborar com os Joy e outras bandas e que realizou diversos clips para grupos como os Depeche, Nirvana e os Metallica. As opções são tão trabalhadas, o trabalho de direcção é tão de ourives, tão rendilhada o trabalho de câmara que este filme se assume como uma obra prima. A ver e ouvir absolutamente!

Visto no Primeiro Couch Film Fest, LX, Julho de 2008

26 de ago. de 2008

Paris


Bastou-me ver o trailer de Paris para pensar que não podia perder este filme do mesmo director de L'auberge espagnole (Cédric Klapisch).
Paris fala-nos de Pierre ( Romain Duris), um dançarino profissional que tem uma doença cardíaca e que espera por um transplante do coração; fala-nos também de Élise (Juliette Binoche), irmã de Pierre, e de muitas outras pessoas que, de diferentes formas, fazem parte das suas vidas.
Gostei mesmo muito deste filme. Das histórias, da Fotografia fenomenal e das interpretações dos actores.
Entre várias coisas, ficou-me na memória o ranger do chão da casa de Pierre (que me lembra o som da casa da minha tia, em Paris) e a cena em que Pierre fica a tomar conta dos sobrinhos (reparem na letra da música!!).
A não perder!

Wall.e

Com esta coisa de ver cinema em casa a toda a hora, já tinha perdido a conta aos meses sem fim que não ía a uma sala de cinema. Walle marcou o regresso...
Para mim, o mais fantástico, é sem dúvida a forma como os robôs comunicam entre si e com os humanos sem falar
. As expressões bastam... A Terra enfrenta uma crise de lixo tão grande que para garantir a sobrevivência dos Homens, estes refugiam-se numa giga-nave no espaço onde se deslocam numas cadeiras voadoras e comem, comem, engordam, comem. Programam o envio de robôs para pesquisar se ainda há vida na Terra e é aí que o Walle, último robô na terra, parte de uma operação falhada de limpeza do lixo, conhece a Eva, o robô que vai à procura de vida. E o resto é alegria, romantismo e diversão.

24 de ago. de 2008

A ESCOLA DOS CARTEIROS

A Escola dos Carteiros serviu também de escola para o posterior Jour de Fête que vi em complemento a este e em que Tati espraia todas as suas capacidades como mimo e animador. Este A Escola, de 1947, serve como treino para o filme maior e recai nas atribulações e trapalhadas da personagem do carteiro François, maravilhosamente preenchida de gestualidades patarecas por Tati. As cenas mais hilariantes são a do treino dos carteiros, com bicicletas amarradas ao chão dentro da estação central, em que François pede um copito após ouvir sermão sobre a necessidade de maior velocidade na entrega e a cena final com a sacola cheia de cartas a ser levada por um avião. Esta curta é linda, imperdível!

HÁ FESTA NA ALDEIA

Jacques Tati, de seu verdadeiro apelido Tatischeff - reduzido para um francófono Tati, é dos mais interessantes realizadores/actores do século passado, surgindo na linha cómica de Keaton e Chaplin. Começou a sua carreira cinematográfica filmando as suas actuações como mimo, panafernália física que o acompanhou em todas as obras e que levou à sua maior criação, a de Monsieur Hulot (presente também nos perfeitos Mon Uncle - que lhe valeu um Óscar e Cannes - e Playtime).

Hilariante como sempre, neste Há festa na Aldeia (Leão d'Ouro), Tati compõe um desastrado carteiro, cheio de barroquismos nos gestos e com especial tendência a meter-se em trapalhada sobre trapalhada enquanto tenta terminar a ronda de entrega de cartas. O filme é hilariante e vive sobretudo do gesto, toda a linguagem é mínima e por vezes abdica-se totalmente desta tornando-a imperceptível, ruído de fundo. Em todos os filmes de Tati isto é bem marcado, abundando o gesto em detrimento das falas (e existindo, quase todas inaudíveis), mas convenhamos, ele era mimo e como mimo, é a pantomima do seu corpo e face que nos atrai.

Jour de Fête tem cenas em que me desmancho completamente como a que o carteiro é desviado da ronda para coordenar a colocação do poste para a festa, ou a cena do café em que o embebedam conscientemente, ou ainda a da entrega de carta 'à americana' que termina com uma trapalhona queda a um rio.

Como curiosidade refira-se que este filme seria o primeiro francês - falamos de 1949 - filmado a cores, o que não aconteceu por falha da tecnologia que era ainda experimental. Salvou-se o filme pois Tati decidiu filmar simultaneamente a pb - o filme como ele o pretendia seria finalmente lançado em 1995, com cores que preenchem o ecrã e se assumem expressionistas.

A ver - é delicioso! Revisto em delicodoce manhã domingueira.

18 de ago. de 2008

O amor nos tempos de cólera



"Florentino Ariza não deixara de pensar nela um único instante desde que Fermina Daza o rechaçou sem apelação depois de uns amores longos e contrariados, e haviam transcorrido a partir de então cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias."
Este livro, inspirado na história real dos pais de Gabriel Garcia Márquez, conta-nos a história de Florentino Ariza e o seu amor por Fermina Daza - que surgiu na flor da idade e o acompanhou pela vida fora. E conta-nos todos os outros amores que foram ajudando Florentino Ariza a ultrapassar a dor de não ter Fermina Daza a seu lado.

Adorei ler este livro e estou super curiosa para ver o filme (que já anda por aí). Li a versão brasileira, o que me trouxe um desafio e faz-me pensar que não é um acordo ortográfico que nos vai fazer entender melhor...
Gostei de várias frases/excertos que partilho agora aqui:
- "(...) e Florentino Ariza compreendeu por fim que se pode ser amigo de uma mulher sem ir para a cama com ela."
- "Era a ele [Juvenal Urbino - o marido], e não às cunhadas imbecis e à sogra meio doida, que Fermina Daza atribuía a culpa pela armadilha de morte em que fora apanhada. Tarde demais desconfiava de que, por trás da sua autoridade profissional e seu fascínio mundano, o homem com quem se casara era um fraco sem redenção (...)"
- "(...) Fermina Daza os punha onde não se vissem. Pois não era tão ordenada quanto acreditava, mas tinha um método próprio e desesperado de parecer que era: escondia a desordem."
- "Solitário entre a multidão do cais, dissera a si mesmo com um toque de raiva: 'O coração tem mais quartos que uma pensão de putas'." [Concordo tanto com isto! O meu coração tem muitos cantinhos reservados às pessoas especiais da minha vida... :) ]

16 de ago. de 2008

RUGGED

Rugged é uma revista de distribuição gratuita e periodicidade quadrimestral - aborda as tendências urbanas ao género da DIF e da PARQ aqui por Portugal, sendo que a diferença é que a distribuição é mais abrangente e eu ainda a consigo apanhar aqui por LX, mesmo sendo feita em Dusseldorf, o que é explicável dado que surge em inglês e trata do que se passa no mundo da streetwear, streetart e música e não se fica pelo umbiguismo das nossas que se centram muito por Lisboa e que atiram para segundo plano o inglês. As nossas de casa são boas, mas a Rugged é, dentro do género, excelente! Vai já no nº 16, pós verão de 2008.

Imagem de capa do nº8 - foi a mais apelativa que encontrei, mesmo tendo aqui em mãos o nº 15, com interessantes artigos sobre José Posada e Wu Tang Clan, a descoberta da alemã Trust Mag e pérolas sobre Tattoo e urban art página após página. Altamente recomendável!

14 de ago. de 2008

A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS

Existe uma vida secreta nas palavras que é revelada apenas quando outras palavras nos vêm preencher os vazios. Hannah é uma tímida operária fabril surda e reservada que é obrigava a tirar um tempo de férias por revelar problemas de adaptação e de convivência com os outros operários.

Hannah desliga o aparelho auditivo que a aproxima do mundo e nesses longos momentos de ausência dos outros encontra a paz, parecendo aos outros que o isolamento a que se vota é uma afronta que lhes dedica - mais que uma intolerância perante o silêncio, é uma incompreensão perante a doce ausência das palavras em excesso. E Hannah usa as palavras como uma torneira mal fechada: gota a gota, comedida, sóbria e certeira.

Nesse seu mundo silencioso Hannah encontra o lugar perfeito quando, estando de férias junto à costa, surge-lhe a possibilidade de trabalhar como enfermeira de um operário ferido e cego provisoriamente, numa plataforma petrolífera. Este local é o poiso de homens perdidos e todos eles silenciosamente presos a palavras não ditas e memórias camufladas. Existe o cozinheiro italiano que para combater a monotonia dedica cada dia a um país diferente cozinhando, vestindo-se e ouvindo música desse país - pelo que é incompreendido pelos outros que lhe pedem um simples cheeseburguer. Temos aqui o biólogo que estuda o batimento da ondulação na plataforma e que se dedica à investigação da vida das ostras. Temos o amor entre dois homens com família lá fora que se vai revelando. E temos o homem na cama - um magistral Tim Robbins - queimado e provisoriamente cego que vai desvendando aos poucos toda a sua história enquanto tenta descobrir a de Hannah.

Hannah encaixa no perfil de silêncio e de inquietude que povoam esta plataforma repleta de fantasmas - os seus deleites secretos com a comida preparada pelo cozinheiro são para ela um pecado que aprecia a só, salvando-a um pouco mais - são pequenos passos para a sanidade que vai desbravando, ela que é louca por maçãs e paranóica por barras de sabão.

Este filme de Isabel Coixet, de representações acutilantes, de personalidades envolventes, de uma história dramática que se nos vai surgindo, de uma fotografia e filmagem sóbria e serena é uma bela lição sobre a relação entre pessoas que se vão descobrindo e absolvendo, mesmo perante si.

* Visto na mostra de cinema espanhol, Cinema São Jorge, LX - Julho de 2008

O MEU IRMÃO É FILHO ÚNICO

Quando reparei na propaganda a este filme espalhada pelo Bairro Alto, notei uma pequena frase que a acompanhava e que tornava a obra ainda mais atraente: dos mesmos produtores da Melhor Juventude chega agora O meu irmão é filho único - Mio Fratello È Figlio Unico. Como tinha adorado o primeiro não iria deixar de ver este, ainda mais com o especial atractivo de ser dos mesmos criadores.

Este filme de Daniele Luchetti tem as mesmas preocupações de La Meglio Gioventù - ou seja, preocupa-se em contar a história recente de Itália associando-a a quem a construiu e viveu, os seus próprios cidadãos, os próprios italianos. Todos os temores presentes no crescimento estão aqui de lado a lado com as ideologias políticas e a luta social do pós-guerra na bota itálica. O fascismo e o comunismo, o socialismo e o terrorismo das Brigate Rosse e os irredutíveis fascistas das Camisas Negras surgem lado a lado e mesmo como combustível para a afirmação adulta de Accio e diferentes crenças políticas deste em relação a toda a família marcam-no como filho único - nem melhor nem pior como pessoa por apoiar inicialmente a doutrina fascista, nem como instável por mais tarde se aproximar ao ideário comunista. Ele é representativo da descoberta da juventude - essa melhor juventude que vai residindo nas memórias - cheio de erros, gritos, omissões, verdades, avanços e recuos.

O triângulo amoroso e político com o seu irmão e a namorada deste é um dos aspectos mais do seu avanço como homem que procura respostas e não as vai encontrando facilmente. Se é um filho único não deixa de ser irmão, e se combate dentro da própria família pela sua afirmação e daí para fora, para o mundo não é por isso que o afastam. O título - impecável - surge mais na própria incompreensão de Accio sobre si.

As interpretações são arrebatadoras e tudo no filme é magnífico, existe algo de profundamente enternecedor e novelístico nesta partilha da vivência com uma qualquer família italiana. Não fomos somos seremos assim também?

* Filme visto no Cinema King, LX, em excelente companhia de mim contigo.

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

Outra das curtas de Condorcet que se rege pelas normas do Dogma. 4 de 6 das que vi - verei as restantes já já. Não consegui encontrar qualquer referência a esta obra online, nem no omnisciente IMDB me safei, por isso aproveito para postar a obra de Eduardo Condorcet disponível nesse site : Eduardo Condorcet no IMDB.

Em Verdade ou Consequência, um jogo que se joga na vida jogando com segredos de vida que se pretendem revelar mas não se partilham de facto, torna-se um jogo violento. Um choque entre o querer e o poder, entre o grito e o medo da expectativa da revelação, entre a revolta e o conformismo revelado.

Este é o filme do oprimido, em que o herói é esmagado por todos e apenas por si. É um herói fraco que odiamos por não se revelar mas que ao mesmo tempo acompanhamos a dor de querer ser o que todos querem que seja, uma ideia de, uma ideia. E é sob esta ideia de ser algo que não é, que permanece, levando-nos a um simultâneo amor-ódio que lhe vamos sentindo. E é um filme sobre a realidade, a realidade da discriminação, sobre a intolerância perante uma relação amorosa minoritária - uma relação homossexual e o odioso conformismo que se vai estabelecendo sem resolução. A compreensão poderia existir mas o novelo nunca é desenrolado - permanece após toda a tensão do jogo a situação que já existia.

As interpretações são capazes e bastante credíveis na sua constante frustração - a fotografia razoável e o trabalho de edição, sobretudo o trecho inicial, muito interessantes. Não é tramado qualificar seja o que for na expectativa que nos acreditem? Vejam e comentem.

Uma curiosidade ao anteriormente referido Máscaras do mesmo director - a personagem central, Ralf é protagonizada pelo mesmo actor que faz de primeiro médico assistente, Dr Wagner, da mãe comatosa no enternecedor Good Bye Lenin! de Wolfang Becker.

Visto algures em jeito esquecido e deleitoso.

12 de ago. de 2008

MÁSCARAS

Masken (no original alemão) :: http://www.imdb.com/title/tt0411633 :: é mais uma curta do realizador conimbricense Eduardo Condorcet incluído no Dogma 95, linha dogmática postulada por Lars von Trier e Thomas Vinterberg e que segue assim :

1. As filmagens devem ser feitas no exterior. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

3. A câmara deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos - ou a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmara está colocada; são as filmagens que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).

4. O filme deve ser a cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmara).

5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6. O filme não deve conter nenhuma acção "superficial". (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer).

7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (Isto significa que o filme se desenvolve em tempo real).

8. São inaceitáveis os filmes de género.

9. O filme deve ser em 35 mm, padrão.

10. O nome do director não deve figurar nos créditos.

Deixo para depois o enquadramento no Dogma 95 de todas as curtas deste realizador que são rotuladas como seguindo esses cânones - das 6 que os seguem vi 4.

Máscaras é a afirmação de que todos carregamos uma máscara - invariavelmente - mas também a percepção de que é esse esconder constante das nossas reais ambições que nos achincalha. Mesmo o mais suave esconderijo privado é uma camuflagem que usamos e carregamos neste teatro da vida. É na ténue resistência a um olhar mais profundo, a um deixar cair a máscara completamente que reside um quotidiano de que nem todos temos a consciência de ser castrador.

A consciência alargada, um acumular de constrangimento, uma angústia pesada, vai crescendo vai crescendo, cresce, até implodir até explodir. A personagem central do filme segue esse caminho acumulativo até à explosão final em que expõe tudo o que foi guardando enquanto homem amargurado. O ensinamento a tirar disto tudo é que as vidas não poderão voltar a ser as mesmas, para o pior ou melhor, seja isso o que for na cabeça de quem lhe fizer sentença - mas que a catarse de Ralf foi a necessário isso sim, é inquestionável.

Neste sólido filme de alcova colado ao Dogma destacam-se as interpretações extremamente credíveis e apetece-me dizer que as máscaras sobrevêm e não tão só no Carnaval.

Filme visto em deleite de tarde de casa - o meu sofá é o melhor cinema num Domingo ao crepúsculo de Lisboa.

TAKE MAG

Como tão bem anotou o Ricardo (http://axasteoque.blogspot.com) o artigo sobre a Take Magazine (http://www.take.com.pt) saia aqui inexacta. A recomendação é assim cumprida e como não tenho por hábito remover ou alterar seja o que for - deixo tudo seguir assim, torto, assumindo sempre o erro - cumpro o pedido do Ricardo com a colagem do texto original já revisto e mantendo o artigo anterior sem tags, para que não prolifere o erro mas que assuma a inexactidão daquele momento:

Faz agora 9 meses que a Hachette deixou de editar a revista Première, a única edição ligada ao cinema que tínhamos, com a alegação de que os custos de produção eram elevados e que não suplantavam os lucros. E até hoje, em Portugal, não mais tivémos qualquer edição em papel, ligada ao mundo da 7ª arte. Foi-me falado então que, por iniciativa de um jovem designer de comunicação, foi criada uma equipa, donde faz parte um dos jornalistas da Première, e que se encontrariam a editar on-line desde Fevereiro deste ano (a edição 0, a título experimental), uma revista de cinema com a designação “TAKE”.

E que o faziam em regime de voluntariado uma vez que nenhuma editora ainda teria assumido a sua publicação em papel. A revista de Maio, a Take 3 (ainda não consta a de Junho) apresenta um layout mais apelativo que a Première, com crítica, reportagem, destaques para entrevistas a realizadores e actores portugueses (Teresa Prata de “Terra Sonâmbula”, Nuno Lopes de “Goodnight Irene”), publicidade a festivais de cinema como o Festróia e passatempos.

Eu sinto a falta do toque, do folhear da revista. E tu, não sentes? Agora que o público português está mais receptivo ao cinema, que pululam festivais e mostras de cinema cujos calendários se encavalitam nas nossas agendas, em que nos queixamos da falta de projecção dos jovens realizadores nacionais, porque razão não temos uma revista de cinema?

7 de ago. de 2008

Mamma Mia!


Mamma Mia é uma comédia-musical que conta a história de Sophie (Amanda Seyfried), que vai casar com Sky (Dominic Cooper) no hotel da mãe, Donna (Meryl Streep), numa ilha grega. O único senão é que Sophie não conhece o pai. Mas, ao encontrar o diário da mãe, descobre que tem 3 possíveis pais! E, secretamente, resolve convidá-los para o casamento! Estes são os ingredientes necessários para muita risota ao som dos Abba!
É de realçar os dotes vocais dos vários actores! Assim como as representações dos 3 possíveis pais - Sam, Harry e Bill (Pierce Brosnan, Colin Firth e Stellan Skarsgård) - e das duas amigas de Donna - Rosie e Tanya (Julie Walters e Christine Baranski).

Este filme
fez-me rir muito mesmo! E fez-me "ouvir" as músicas dos Abba com outros "ouvidos " mais divertidos!
A única coisa desagradável, para mim, foi o público presente na sala. Uma coisa é rir quando algo tem piada, outra coisa é rir de cada vez que certos actores começavam a cantar! Achei uma falta de respeito enorme. Chegou a um ponto incomodativo mesmo... Mas paciência - espero que para a próxima não aconteça o mesmo - irei vê-lo uma segunda vez porque o meu B. ainda não o viu e eu não me importo de repetir esta sessão divertida. :)

29 de jul. de 2008

Sex and the City



Começa já a ser hábito ver séries televisivas a arriscarem-se na grande tela. Fui ver uma das que arriscou e que obteve bons resultados: Sex and the City.
Carrie (Sarah Jessica Parker), Samantha (Kim Cattrall), Charlotte (Kristin Davis) e Miranda (Cynthia Nixon) mantêm a amizade que as une da forma divertida, e bem ao jeito feminino, a que nos acostumaram na série.
Estão agora em diferentes etapas da vida e, embora com mais maturidade, também com diferentes dúvidas, questões e mesmo decisões.
Depois de vários percalços, cada uma consegue encontrar o melhor caminho para si (mesmo que seja sozinha...) - e o suporte das amigas é um factor bem importante!

Antes de ir ver o filme, uma amiga disse-me "vais morrer de riso!". É verdade que me ri. Mas acho que saíram mais lágrimas de mim do que gargalhadas... Não imaginava que tal me iria acontecer com este filme e creio que assim foi porque tenho as mesmas dúvidas/questões de algumas das personagens. Não conheço o final do meu filme, mas poderei encontrar as respostas com as minhas amigas da minha cidade. :)

21 de jul. de 2008

The Edge of Love




The Edge of love, baseado na vida real do poeta Dylan Thomas, mostra a amizade que cresce entre as duas pessoas que o amam (a esposa e a melhor amiga de infância) e as consequências de certos acontecimentos.
A história passa-se em plena 2ª Guerra Mundial e é incrível como a fotografia do filme consegue ser tão "negra", como a guerra, e ter também cores fortes que dão uma beleza enorme ao filme.

Este filme, confirmou o que percebi quando vi Atonement - a Keira Knightley parece ter deixado a imagem de teenager e mostra que é capaz de agarrar em papéis adultos e interpretá-los de forma bem interessante.
Não consigo compreender como algumas pessoas falam que não gostam de certos actores por causa do tipo de filmes em que participaram ou até por outras coisas mínimas (por exemplo, o queixo/boca da Keira Knightley!). Acho que devemos ver mais além e perceber que há bons e maus actores e bons e maus filmes. The Edge of Love é um bom filme com bons actores!

Enquanto pesquisava informações sobre o filme encontrei esta frase que o define completamente: "There are some things friends should never share".

17 de jul. de 2008

1984

Li este livro há pelo menos um mês... Fui adiando e adiando escrever sobre ele. Sabia que não iria ser fácil. E não foi.
Mas depois lembrei-me do que os meus colegas do "Lendas e Legendas" sempre me disseram: "escreve sobre o que sentiste ao ler o livro". Na verdade, ao ler o livro senti... "Tenho de ler mais romances de ficção, pois deste gostei!" :)
A vantagem de se tirar um tempo para nós, fazer a tal "pausa criativa" (expressão dita pela minha professora de alemão: "Nao digam que estão desempregados! Digam antes que "fazem uma pausa criativa!" :D ), é sem dúvida termos tempo para ler bastante e informarmo-nos sobre o mundo que gira em nossa volta. Confesso que por vezes, após uma manhã de leitura de notícias sobre o mundo, desenvolve-se em mim um sentimento depressivo. Para mim, o mundo enlouqueceu de vez! Começo a pensar que o que preciso para me abstrair desse facto é "ter de me preocupar" com "problemazinhos": o stress do trabalho, uma molha que apanhei a caminho dos correios, o atraso dos transportes públicos, ter de pintar o cabelo outra vez (pois os brancos já voltaram a notar-se), ter de pagar 1,5 € por uma Bica, etc, etc... Apesar deste sentimento, o tempo que tenho disponível dá principalmente para começar a juntar as peças que vou recolhendo das minhas leituras e tomar consciência do que se passa à minha volta. Por esta consciência adquirida neste último ano, OBRIGADA "pausa criativa"!
Devo dizer que ver o filme "Zeitgeist", já mencionado neste blog, ajudou-me a juntar mais umas pecinhas do puzzle. Aconselho a verem primeiro o filme e depois ler "1984".

Curiosidade sobre o autor: Eric Arthur Blair sob o pseudónimo de George Orwell.
Curiosidade sobre o título: "o título vem da inversão dos dois últimos dígitos do ano em que o livro foi escrito, 1948" (!!!).
Curiosidade sobre o livro: "Orwell lutou pela implantação do comunismo em Espanha. Mesmo não tendo êxito, foi convidado a visitar a URSS. Voltou estarrecido e escreveu "1984"."
Curiosidade sobre o filme: o livro foi adaptado para o cinema em 1984.

O cenário do romance, é um tempo de guerra permanente em todo o mundo, pois este foi dividido em 3 grandes super-Estados: a Lestásia, a Eurásia e a Oceania, que se combatem mesmo sabendo que nenhuma sairá vencedora.

Opto por escrever algumas frases do livro. Ora, reparem nisto:

"De facto, a natureza da guerra mudou. Em rigor, o que mudou foi a ordem de importância das razões pelas quais se faz a guerra."
"Com a criação de economias fechadas em que a produção e o consumo são interdependentes, desapareceu a luta pelos mercados, que constituía uma das principais causas das guerras anteriores, ao mesmo tempo que a posse das matérias-primas deixou de ser questão de vida ou de morte. Cada qual dos três super-Estados tem, à partida, território tão vasto que aí encontra praticamente todas as matérias-primas necessárias."
"É pela posse de regiões densamente populosas, (...), que as três potências se batem continuamente. (...) Os habitantes dessas zonas, reduzidos mais ou menos abertamente ao estatuto de escravos, passam continuamente de conquistador em conquistador, e são consumidos literalmente, como carvão ou petróleo, na corrida aos armamentos, na ocupação de mais território,...".
" ..., não se pode dizer que a força de trabalho dos povos explorados da zona densamente populosa seja verdadeiramente indispensável à economia mundial. Ela nada acrescenta à riqueza do planeta, pois utiliza-se em exclusivo todo esse trabalho para fins bélicos, e o objectivo de cada guerra resume-se sempre a ficar em melhores condições de empreender outra guerra."
"De facto, se todos tivessem igual acesso ao lazer e à segurança, a grande maioria dos seres humanos, que normalmente vivem embrutecidos pela pobreza, instruir-se-iam e aprenderiam a pensar pela sua própria cabeça; a partir daí, cedo ou tarde concluiriam que a minoria privilegiada não desempenhava qualquer função, e acabariam com ela."
"O problema residia em descobrir como manter em funcionamento as engrenagens da indústria sem aumentar a riqueza efectiva do mundo. Impunha-se assim produzir bens, mas sem os distribuir. E, na prática, o único meio de consegui-lo era a guerra permanente. A essência da guerra é a destruição, não necessariamente de vidas humanas, mas do produto do trabalho humano."
"Efectivamente, as necessidades da população são sempre subestimadas, do que resulta a escassez crónica de metade dos bens essenciais; mas tal surge também como uma vantagem. É política deliberada, mesmo aos mais favorecidos, mantê-los pouco acima do limiar da pobreza, porque a escassez generalizada aumenta a importância dos pequenos privilégios."
"Ao mesmo tempo, a consciência de se estar em guerra, e por conseguinte em perigo, faz surgir como condição natural e inevitável da sobrevivência a entrega de todo o poder a uma pequena casta."

Interessante. No mínimo faz-nos pensar, pelo menos a mim fez...

"Não restará lealdade, senão a lealdade ao Partido. Nem amor, senão o amor pelo Grande Irmão. Nem riso, senão o riso da vitória sobre um inimigo aniquilado. Nem arte, literatura ou ciência. Quando formos omnipotentes dispensaremos a ciência. Desaparecerá a distinção entre beleza e fealdade. Nao haverá curiosidade, nem o gozo de viver. Todos os prazeres que possam fazer concorrência ao partido serão destruidos. Mas haverá sempre (não te esqueças disto, Winston), haverá sempre a embriaguez do poder, cada vez mais intensa, cada vez mais subtil. Sempre, a todo o momento, a emoção da vitória, a sensação de esmagar um inimigo indefeso. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota a pisar um rosto humano. Para sempre."

Até arrepia, não é?
No livro, como consegue o "Partido do Grande Irmão" tudo isto? Através de Ministérios: o Ministério da Verdade que trata da falsificação de documentos referentes ao passado (incluindo jornais, revistas,...); o Ministério da Paz que trata da existência de uma guerra permanente; Ministério da Fartura que trata de manter a fome dos que mais precisam; o Ministério do Amor que trata de espionar e controlar toda a população ( "Big Brother is watching you" ). Acrescente-se a esta lista uma "reforma oficial" da língua em que é "a primeira língua a reduzir os seus termos". O que não se conseguir definir, não existe, não se sente! (ex.: revolta, traição, mentira,...).
O lema do Grande Irmão é: "Guerra é paz, Liberdade é escravidão, Ignorância é força." (não vos faz lembrar nada?)

Mas é um romance! E este livro tem todos os pormenores referentes a uma história de amor. Apresentou um final surpreendente, para mim na altura que o li, mas que agora o entendo. O seu final não poderia ser de outra maneira.

7 de jul. de 2008

Krzysztof Kieslowski: I'm So-So...

O documentário Krzysztof Kieslowski: I'm So-So... fez-me entender um pouco mais o homem por trás da trilogia das três cores: Azul, Branco e Vermelho.
Aqui é o próprio Kieslowski que aparece à frente da câmara e fala da sua vida e de alguns dos filmes que realizou.
Gostei de o ouvir - era uma pessoa bem interessante!
Fiquei com vontade de ver o Blind Chance onde aparece a ideia também presente no Run Lola Run (que adorei!).
Para saber mais ver aqui os textos "Kieslowski documentarista" e "Do saber ao não saber".