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24 de mai. de 2010

SHUTTER ISLAND



















intro

Shutter Island (2010) pode ser resumido e rotulado como um filme não-Scorsese, mas tal opinião será sempre redutora perante a obra – até porque o que não é alheio a todas as áreas de criação é a inovação; que surge naturalmente acompanhada com irregularidades na qualidade e  lado a lado com uma aceitação intermitente pela crítica e pelo público. O último filme de Scorsese é um objecto estranho na sua obra, mas não é por isso que se classifica como um mau filme, nem por sombras.

crítica

Compramos o último cd de uma determinada banda que já conhecemos e gostamos porque lhe identificamos um estilo e é pela continuidade desse que não abdicamos de termos o seu último trabalho. Qualquer alteração a esse estilo será sempre acompanhado com alguma estranheza. O mesmo se passa no cinema e se em David Lynch o magnífico Uma História Simples (The Straight Story - 1999) constituiu uma quebra consciente com a linha do realizador, Shutter Island não é nem uma quebra óbvia nem sequer uma consciente afirmação da diferença [na filmografia de Scorsese]. Ang Lee prova filme após filme que se pode abdicar absolutamente dum estilo vincado e continuar a fazer bom cinema, saltitando entre obras magníficas e tão diversas como Comer Beber Homem Mulher (Yin Shi Nan Nu - 1994) ou O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain - 2005). 

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Restante da crítica no n1 da Magazine HD, Suplemento Take

12 de jan. de 2010

ÁGORA


















 Este foi o filme mais remotamente honesto que me recordo de ter visto sobre a época clássica. Dos que me vou recordando enquanto componho estas linhas não encontro nem um em que o interesse histórico e a curiosidade fílmica não tenham sido ultrapassadas por um gosto demasiado acre a falta de rigor histórico - mas convenhamos, um filme é um produto comercial e alguns dos ingredientes acrescentados e alterado a/em, e citando alguns de memória como exemplo, Gladiator, Cleópatra, Spartacus, só os fizeram ficar mais apetecíveis enquanto produto e portanto, mais apetecíveis para o público.

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Ver restante crítica na Take n22 aqui : www.take.com.pt


Crítica alterada e composta para publicação (aparte primeiro parágrafo todo o restante texto foi refeito na íntegra)

3 de jan. de 2010

A SCANNER DARKLY



















Não sei se deva começar a incluir fichas técnicas nos artigos - se receber três sim, então sim, senão não. Também a inclusão de enlaces (uma das palavras que temos disponíveis na nossa língua para designar links) é uma trabalheira. Não sei se os inclua, esse copipastear em arroto de teclas é um conturbado cansaço para mim. Enfim, filmes.

Uma colisão entre alguns poucos filmes de que me vou recordando é o que me ocorre, agora que evoco este filme de Richard Linklater e também enquanto vou formando linhas que se espremem do meu pensamento. Um pouco de Traffic - um travo a Naked Lunch (tanto filme como livro, leiam e vejam mas protejam-se bem) e ainda Rush a saltitar num filme adaptado dum livro de Philip K.Dick. Esse mesmo, o do magistral Blade Runner e do mais recente RM. A droga e a possibilidade de demência por ela induzida lado a lado, a luta constante e a assumpção da batalha perdida por parte de quem a combate diariamente e finalmente - o polícia, que se infiltra no submundo para que o contamine por dentro e por ele acaba contaminado.

Além de ser uma boa história habilmente contada por Linklater - terei que ler ainda o livro - este optou também e à maneira de Waking Life, por usar a técnica do Rotoscoping (desenho sobre acção real filmada). Se no Waking Life a técnica resulta necessariamente pela beleza estética e curiosidade técnica que se procurava, aqui acaba por ser uma nova camada de irrealidade a juntar à já bastante abstracta visão do mundo da personagem central - simultaneamente polícia infiltrado, traficante vigiado, terrorista acusado, vigilante dele próprio enquanto polícia e viciado na fictícia substância D.

Se a descrição não passa uma ideia de que é suficientemente confuso, o filme pode ser mesmo mais do que ligeiramente perturbador. 

Visionado nas Flores Sessions - Lx

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EAT DRINK MAN WOMAN



















Magnífico filme de Ang Lee - um dos três da sua fase de Taiwan, antes da aclamação com Brokeback Mountain, e que o  revelou um realizador detentor duma irregularidade bastante curiosa, no meu entender.

A sequência inicial em que o protagonista prepara o jantar de Domingo é encantatória - Chu esmera-se na cozinha pois é a forma que tem de comunicar com as suas três filhas, e é pelo detalhe da confecção, pelo esmero que tem na cuidada mistura dos ingredientes e na obtenção do sabor perfeito dos seus elaborados cozinhados tradicionais chineses que ele (mestre cozinheiro semi-aposentado) lhes tenta chegar.

Os jantares de Domingo são um ritual a que as filhas tentam silenciosamente escapar - ele, viúvo e com o seu mais necessário sentido desaparecendo, o paladar. Elas, três irmãs tão diferentes entre si no que fazem em vida mas tão idênticas no que buscam - o amor. O pai lentamente se vai aproximando delas à força de garfadas de vida enquanto que para cada uma delas a composição do prato do amor se prepara com resultados bem distintos, ora em excesso de tempero, ora em perfeição para o palato, ora agridoce ou insonso e talvez ainda bem amargo.

Os filmes que nos conquistam pela boca, os filmes que no enchem os olhos, os filmes que vivem de afeições de sabores, de cozinha, de tachos e panelas e dedicações às papilas gustativas. Lembrei-me agora assim de repente de Chocolate e do Como Água para Chocolate, filmes desde livros onde é o paladar (e o olfacto e a visão e até o tacto - que os sentidos dançam todos em proveito do estômago) o centro do prazer. Ou ainda, lembrei-me agora, do truculento O Cozinheiro, o Ladrão, a Sua Mulher e o Amante Desta. A vida é um prato - há que a saborear demorada e prontamente. Ou engasgarmo-nos no processo.

Visto na Flores Sessions , Lx

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31 de dez. de 2009

OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES (filme)


















Depois de ler o livro de Stieg Larsson - o primeiro da série Millennium com o nome de Os Homens que Odeiam as Mulheres, traduzido para inglês com o título The Girl with the Dragon Tattoo, vi agora o filme sueco-dinamarquês que é a primeira das adaptações ainda escandinavas. Nunca esperei vir a dizer que anseio pelas versões americanas e que sairão algures durante o próximo ano, para que se apague da minha memória esta péssima adaptação que vi ontem.

Além de centrar toda a história em torno de Lisbeth Salander - a tal da tatuagem com o dragão, aproximando-se aqui do Red Dragon - a história perde-se em infinitos detalhes que a deixam a  perder em relação ao livro. É certo que seria tarefa complicada transportar para o cinema uma obra de 500 e tal páginas e tão densa em personagens, genealogias e acontecimentos. Mas poderiam ter feito muito melhor, até porque lhe aponto dois grandes e graves erros:

1 - o filme foi feito para quem tenha lido o livro - fãs, portanto - mas apaga-lhe características importantes que - ironicamente - fizeram com que o livro fosse o sucesso que fosse. Assim nenhum fã ficará satisfeito e quem veja o filme sem ter lido o livro terá que recorrer a este para preencher os muitos buracos da história.

2-  o guião é ele todo um grande erro! Aponto-lhe milhentas falhas que fazem perder o filme em relação ao livro. E se é certo que um filme nunca poderá chegar à densidade que um livro oferece, este poderia e deveria ter ido mais além na construção do livro de Larsson e na sua muito esperada passagem para o cinema. Além do notório erro de casting na selecção da actriz para Lisbeth (eu vejo-a como a Nikita de Besson e como tal seria perfeita - misto de adolescente púbere e femme fatale, tal como no livro) outros erros saltam à vista, como geográficos (a ilha que funciona no esquema de sala fechada como nos clássicos da literatura policial) e que aqui não é assim mostrada, as relações de Michael que são importantes para o fluir da história e para os avanços das suas descobertas (e que no filme desapareceram) e muitos outros (como o polícia estar ainda no activo, as imprecisões de nomes e passados, o revelar tardio da morte de Gottfried, a morte precoce de Anita, etc).

Este filme é um rotundo falhanço e uma péssima homenagem ao livro. Venham os americanos, por favor!

Visto por LX - Flores Sessions

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BUFFALO 66


















Vi finalmente o filme Buffalo 66 de Vincent Gallo - produzido, realizado, composto e protagonizado por este. Agora falta-me o The Brown Bunny - o polémico TBB. Buffalo 66 é um bom filme, é aquilo que esperava, ou seja, um pequeno épico sobre um anti-herói marginal - oprimido, acossado, abusado, agressivo, à margem da sociedade e completamente ignorado pelos pais.

Ao sair da prisão e na expectativa de reencontrar os pais - que acreditam que ocupa posição de destaque num serviço governamental - encontra uma rapariga para que se faça passar por sua mulher. É necessário dizer que o seu interesse é eliminar o jogador de futebol que falhou uma jogada no SuperBowl fazendo com perdesse uma aposta - tendo para isso e para pagar uma dívida para com o mafioso que lhe deu crédito (um pequeno papel de Mickey Rourke) tomar culpa e ocupar o lugar de um criminoso na cadeia. É necessário dizer também que a rapariga que rapta acaba por se apaixonar por ele e em isso, relutantemente, ele lhe retribui.

Falhando na vida, falhando como marginal e afectivamente um desastre é dessa partilha do seu difícil progredir diário que vive o filme. E é bom, é um road movie urbano - um Kerouac feito filme que me lembra o díptico do Coppola - Rumble Fish e o The Ousiders, mas com um homem só.

Visto nas Flores Sessions, Lisboa

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30 de dez. de 2009

ÁGORA


















Este foi o filme mais honesto que me recordo de ter visto sobre a época clássica. Dos que me vou recordando enquanto componho estas linhas não encontro nem um em que o interesse histórico e a curiosidade fílmica não tenham sido ultrapassadas por um gostinho demasiado acre a falta de rigor histórico. O recurso à espectacularidade é desnecessário, mas convenhamos, um filme é um produto comercial e alguns dos ingredientes acrescentados a (por exemplo) Gladiator, 300, Cleópatra, Ben Hur, Quo Vadis, Spartacus e outros tantos, só os fizeram ficar mais apetecíveis enquanto produto e portanto, mais vendáveis.

Em Ágora encontram-se alguns retoques ao guião com esse propósito mas nada que o estrague verdadeiramente, até porque a incursão americana de Amenábar não é assim tão profunda (desde The Others e seguido por Mar Adentro). Ágora conta a história da filósofa / astrónoma e matemática Hipátia de Alexandria no Século IV. Encontramos o Império Romano em decadência e em plenas lutas religiosas - os diversos grupos confundem-se com os estratos sociais e afirmam-se com crescente extremismo e violento antagonismo. Se os pagãos são ainda a classe política e intelectual dominante dos cidadãos patrícios romanos e os judeus os comerciantes, são os cristãos - ainda não divididos pelo primeiro Cisma - que constituem o grosso das classes baixas e da classe escrava. Enquanto o Império se desmancha é no seu seio, muito alimentado pelas diferenças económicas e sociais, que frutifica a religião cristã em detrimento das anteriores divindades (e hierarquia social) do Império. Hipátia pertence à classe dirigente de origem helénica - ensina na Biblioteca de Alexandria e preocupa-se apenas com o avanço do conhecimento filosófico, longe das terrenas questões teológicas.

A história de Hipátia - que se encontra documentada - é extremamente bem contada e serve para nos introduzir dentro da época conturbada de então, o rigor histórico é extraordinário (sobretudo na reconstituição da cidade de Alexandria e da sua biblioteca, por via de maquetes e computação gráfica), os desvios são mínimos e destinam-se a adocicar a história (a morte de Hipátia é bastante mais leve no filme do que o foi realmente - presume-se) e a tornar o filme emocionalmente mais acessível (o amor platónico do escravo de Hipátia por esta e o seu interesse pela astronomia). O único erro que aponto a Amenábar é a recriação do líder religioso cristão como um fanático - o que até pode não andar muito longe da verdade, não fosse a actuação do actor se aproximar perigosamente à ideia que temos de extremista e terrorista.

O filme é excelente e recomendo. Deslumbrem-se como eu com as vistas aéreas de Alexandria.

Visto contigo - Picoas, LX

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22 de dez. de 2009

AVATAR


















Não é arbitrário que eu considere Avatar insuficiente e não o considero assim por tomar de ponta o cinema dito “mainstream” norte-americano (ou seja, os filmes saídos do ventre da poderosa máquina dos estúdios norte-americanos - lide Hollywood - em oposição ao cinema independente americano e em forte contraste com o cinema europeu e os fenómenos Bollywood e Nollywood).

É precisamente por ser um seguidor entusiasta do cinema de aventura e entretenimento com o qual etiqueto Avatar (definitivamente mais próximo na forma de um Indiana Jones do que de um Star Trek), que o questiono por ser exigente com esse formato - não destacando um cinema de autor em detrimento de um cinema de massas. É exigência e não purismo, pois seria absurdo apelar a uma pureza num género que se resume em não se resumir.

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Leiam a crítica completa na Revista Take n21 em http://take.com.pt

UNS BELOS RAPAZES


















A curiosidade maior é ver que este filme é uma adaptação do comic realizado pelo próprio Riad Sattouf - que recupera a sua obra e aqui a transforma em filme. A paisagem de subúrbio francês é facilmente perdida em devaneios de acne e de bullies de escola e o que poderia ser uma possibilidade interessante para escalpelizar as diferenças sociais e culturais francesa é perdida - assumindo que existem e não apenas as aflorando sem as escavar minimamente como aqui.

Eu não peço um novo La Haine nem peço que tudo o que venha deste meio se preocupe em mostrar o feio e o real - mas também estou farto de filmes ocos em que o acontecimento mais explosivo seja o de o rebentamento de uma borbulha ou o espionar dos vizinhos da frente enquanto se banqueteiam em sexo.

Apesar de tudo, gargalha-se neste filme - mas só. A secura de garganta veio depois e ao me perguntarem que descrevesse com alguma exactidão o que tinha visto já as palavras se atropelavam tentando constituirem-se em frases. É difícil resumir o não resumível por falta de substância. Ficou o grito pela aparição dos primeiros pêlos púbicos.

Visto no King - LX

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RIDICULE


















Ridículo é ter visto um filme que podia até ser sido interessante com legendagem em inglês mal feita. Como o filme vive do jogo da palavra, do axioma e da parábola e o meu francês não lhe chega a tanto - vi-me limitado a pouco mais do que ir entendendo a espaços o que esta obra de intriguismo palaciano e de alcova ia discorrendo.

Sub-titulagem em francês teria sido melhor e perde-se a hipótese de lhe achar apenas alguma graça quando poderia ser mais do que engraçado. Similar no estilo a um Barry Lyndon e recordando-me na forma o Ligações Perigosas ficou no entanto o sabor de algo que faltava - o esquivar a uma conclusão capaz contribuiu para tal, mas assumo que o não entendimento total do jogo da linguagem de que vive o filme tenha talvez feito com que dele não gostasse.

A repetir.

Visto em LX - Flores Sessions.

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O LAÇO BRANCO












Palma de Ouro de Cannes em 2009 e multi-premiado filme austro - whatever - alemão, este não é decididamente um filme tipo de Haneke. Mais do que um filme delimitado por desconfianças territoriais, financiado a partir de diversas localizações europeias, contando com um alinhamento de actores sobretudo austríaco, filmado e retratando uma cidade alemã - o filme é de Haneke e também um produto europeu.

Tem condimentos de Haneke mas afasta-se do que poderia ser categorizável como absolutamente seu. Mais do que um produto com uma marca - é este filme uma marca e deixa alguma marca. A vida de província corre monótona a preto e branco mas é interrompida por pequenos crimes que permanecerão por decifrar. Assiste-se a movimentos sub-reptícios e demasiadas palavras que ficam por dizer - ou umas quantas outras que se gritam quando não eram necessárias - e a atmosfera geral é pesada, claustrofóbica e geradora de confusão. Haneke portanto. Mas falta-lhe bastante mais de jogo mental e de mal-estar para que sejam mais do que uns simples "Funny Games".

O postal que é gerado preocupa-se mais em mostrar a vida pachorrenta e a tempos brutal de uma vilória germânica pouco antes do eclodir da primeira grande guerra.

Visto em LX - Flores Sessions

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4 de dez. de 2009

Nativity!


Martin Freeman é o professor Maddens indicado para dirigir a peça de teatro de Natal da escola onde trabalha; para o ajudar é-lhe atribuído um assistente (Marc Wootton) completamente "fora do normal", mas que faz imenso sucesso entre as crianças. Um pequeno desentendimento faz com que a escola se torne notícia ao tornar-se público que Hollywood vai filmar a peça e torná-la num filme! Como irá o professor resolver esta situação?...

Ri-me imenso com este Nativity!. Muito cómico mesmo! Cheio de situações hilariantes com um desempenho muito bom das crianças, assim como dos dois actores principais.


3 de dez. de 2009

Rumba


Rumba é um filme muito interessante, super colorido, cheio de ritmo e movimento e também alguma fatalidade. Embora o acidente, que transforma a vida destes dois fãs de dança, seja trágico, é interessante ver como o optimismo permanece e não deixa a fatalidade vencer.
Uma lição de vida? Talvez sim (sejamos optimistas!) :)

20 de set. de 2009

RAPA NUI



Vi este filme porque se desenrola na e sobre o meu mais desejado destino de viagem, a ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico e pertencente ao Chile. Eu tenho um fascínio especial por ilhas e ainda mais por ilhas que contêm uma civilização original que caminhou confinada rumo a uma avançada cultura. Desde a temporada nas Berlengas e a estadia continuada nas ilhas da Ria Formosa que o desejo veio crescendo e já não me chega apenas a acostagem a Almourol, ao Pessegueiro e ao Bugio. Eu quero Cuba, eu quero Mount Saint Michel na Normandia ou o Saint Michael Mount na Cornualha, eu quero Ilha de Moçambique, eu quero o Corvo, eu quero Gorée em Dakar e eu quero absolutamente a Ilha de Páscoa.

Graficamente chamada de Umbigo do Mundo (Rapa Nui) pelo claro isolamento e depois chamada de Páscoa pelos pouco originais e inexoráveis exploradores europeus, esta ilha que foi povoada por incansáveis povos polinésios criou uma alta cultura alicerçada em fortes crenças religiosas que levaram à construção de milhentas estátuas de divindades em santuários de Moai e ao estabelecimento do culto do Homem-Pássaro. A par com esta construção desenfreada foi desenvolvida também um sistema de escrita único e que permanece por decifrar na sua totalidade. Ao que parece o povo estabelecido na ilha foi conquistado e submetido por outro povo entretanto chegado e a guerra civil que estalou entre os dois povos acabou por ser a chave para a sua decadência - finalizado entretanto com o contacto com os insaciáveis europeus.

O filme encontra-nos no meio da competição entre os dois povos - os Orelhas Grandes e os Orelhas Pequenas. A corrida da personagem central em construir um Moai em tempo recorde e de conquistar o ovo e assim adquirir o título de Homem-Pássaro servem de veículo e de reconstituição da sociedade ultrareligiosa e socialmente estratificada de Rapa Nui. O que obtemos é um filme documento simpático que é sobretudo delicioso para fanáticos desta ilha como eu - o romance da personagem principal com uma rapariga que pertence ao outro grupo, serve como tempero talvez um pouco forçado mas ainda assim credível, para um documento histórico interessante.

Visto ali.
Enlace | http://www.imdb.com/title/tt0110944

DISTRICT 9



District 9 é um filme genial dirigido por Neill Blomkamp e produzido pelo agora omnipotente Peter Jackson, que veicula e patrocina uma extraordinária primeira obra do primeiro. Fiquei surpreendido com o filme quando me mostraram o trailer - ainda mais quando percorri o site e então, quando finalmente o vi, foi a apoteose!

O filme é verdadeiramente incrível e um dos melhores que vi desde sempre do género. E que género é esse? Aqui está a questão, pois se temos sempre tendência quase inconsciente a compartimentar tudo, colando rótulos e etiquetas a tudo o que consumimos, também se torna cada vez mais usual que lidemos com objectos como estes: híbridos, sem um rótulo consensual, com uma mensagem clara transmitida por não tão claros mecanismos. O filme é sci-fi naturalmente, mas abraça tanto a questão política e social que se assume um novo género que me atrevo a chamar de Sci-fi Realism em evocação ao Neo-Realismo italiano que tinha como temática as classes operárias e à margem da sociedade.

A mensagem clara é a da incompreensão e segregação de um povo perante outro. A referência política e real é o regime opressivo e discriminatório do Apartheid e o povo que oprime é o humano e o oprimido um grupo de aliens que foi confinado a um distrito de subúrbio de Joanesburgo que se transforma num gueto militarizado onde os aliens - apelidados de Praws - se vão multiplicando até atingirem quase 2 milhões. Esta é a imagem mais forte e sobretudo sarcástica e cínica dado que é sobre um novo grupo de marginalizados que não os povos negros africanos que recai a própria teoria segregacionista que tanto os afectou. Aqui os extraterrestes são os oprimidos há já duas décadas tanto por negros como por brancos relevando que o ser humano é sempre devedor de incompreensões perante as diferenças.

Além do local filmado e do objecto do filme serem completamente originais, outra qualidade dos ETs é diferente da grande maioria de filmes sobre visitantes do espaço: eles são pacíficos e pretendem apenas voltar a casa - a nave mãe paira sobre a cidade mas é-lhes impossibilitado o regresso a ela por não possuirem o módulo de ligação.

O ET phone home em terras sul-africanas é o mote para um filme que surpreende também em efeitos especiais e nas referências fílmicas e históricas utilizadas - Cloverfield pelo suporte utilizado da câmara digital e pelo subterfúgio em que se desenrola a história, no primeiro era uma gravação que era posteriormente encontrada e que seria entremeada com uma gravação de férias e de um encontro/desencontro de um par amoroso.

Aqui é o recurso a terceiras testemunhas, seja pelas reportagens à distância dos canais de televisão, seja pelos documentários de trabalho de campo da MNU (Multi-National United - organismo militarizado responsável pelo controlo e policiamento do gueto onde os aliens estão localizados). O Apartheid está sempre presente seja na memória colectiva seja nos cartazes que segregam os aliens dos humanos. E a transferência necessária que a MNU tenta empreender (mudança em massa dos aliens do distrito 9 para um novíssimo mas não menos precário distrito 10 - mais afastado da cidade e por crescente insistência da população desta) é similar aos guetos e às transladações nazis.

Sharlto Copley está perfeito no seu papel do trapalhão agente da MNU, Wilkus e na verdade, toda a equipa de actores está tremendamente credível. Vejam o filme porque valerá bem a pena, está fantástico como se quer.

Visto nas Vasco Tardio Sessions ao Saldanha
Link | http://www.d-9.com

21 de jul. de 2009

A LARANJA MECÂNICA (livro e filme)




Este é outro dos ilustres casos em que o filme abre o apetite ao livro e também das poucas vezes em que a transposição em filme presta um acertado tributo às páginas em que nasceu - outro é um livro que leio por agora chamado de Gomorra (opinião que terá divergências).

Escrevo sobre A Laranja Mecânica, livro e filme de seu nome original A Clockwork Orange - aquele de Anthony Burgess e este de Stanley Kubrick. Recém chegado de Bristol e refrescado de qualquer vaga ideia de contágio pela mais recente pandemia releio o livro e apetece-me rever o filme. E ao rever a terra, revejo-me também na violência que se encontra em diversas partes de Inglaterra e que serve de catalisador aos filmes de Ritchie e a este livro de Burgess.

A linhagem de criadores sci fi e distópicos ingleses é longa e profícua e do meu muito gosto pessoal, alinham-seVerne, Orwell, Tolkien, Swift, Burgess, Moore, Blake, Huxley, Shelley... Tal como Tolkien e como Orwell também Burgess criou o seu próprio vocabulário que aqui se mostra como o calão da nova população juvenil, os nadescentes que num futuro próximo - presente pop ainda por domesticar - perpretam a ultraviolência horroroíca do atolchocar e do mete-tira sobre os vecos e as debocheicas em pequenos bandos de drucos competidores. Bebem molco misturado com drogas e satisfazem-se nos dias de violência.

O livro é fantástico e de digestão fácil após as primeiras páginas e após entrar o vocabulário nadescente. Surge como uma antevisão e alarme contra o aumento da violência e o descontrolo e autoritarismo estatal - acaba por ser duplamente um manifesto contra o autoritarismo e um reflexo da indiferença da sociedade perante os seus. É de leitura imprescindível assim como o filme já é um clássico e portanto, necessário.

Este - o filme- é irrepreensível no tratamento da história como contada por Burgess e apresenta um Malcom McDowell extraordinário como Alex. Lembrei-me ainda agora que vi uma estátua realizada por Kubrick para o filme na exposição Porn Identity em Viena - toda a imagética e grafismo do filme, as propostas para indumentárias e decorações de bares e habitações está perfeita para o que a imaginação construiu a partir das páginas do livro.

Recomendo em absoluto. Ambos os objectos. Sigam apenas a ordem de leitura primeiro e depois o visionamento - parece-me que encaixa melhor e ficarão muito bem servidos, pois o filme é um complemento gráfico ao livro.

Relido por Sta Catarina - visto há uns anos por Coimbra.

Link :. http://www.imdb.com/title/tt0066921

Chave :.

nadescentes - adolescentes
horroroíca - fantástica
atolchocar - bater
mete-tira - cópula
vecos - tipos
debocheicas - miúdas
drucos - camaradas
molco - leite

19 de mai. de 2009

The Boat That Rocked


Este The Boat That Rocked vale mesmo a pena ver! Além de ser uma comédia bem engraçada, é também uma viagem pela música dos anos 60, mais concretamente o estilo rock.
É a história duma rádio pirata instalada num barco algures no mar, os seus rebeldes locutores e da "perseguição" que o governo, que é anti-rock, lhes faz.
Do mesmo autor de Love Actually, Bridget Jones's Diary, Notting Hill e Four Weddings and a Funeral, entre outros, este filme trá-lo de novo à ribalta depois das críticas em relação ao filme Love Actually (mas o enorme sucesso, deste filme, entre o público opõe-se à reacção negativa dos críticos).
Gostei imenso do filme e adorei a banda sonora! O leque de actores é óptimo e é interessante ver como alguns deles se adaptam tão bem a estilos tão diferentes de personagens/filmes.

14 de abr. de 2009

21 de mar. de 2009

50 FIRST DATES



Este é um típico filme de Adam Sandler e ao afirmar isto acrescento que este é outro objecto de entretenimento fácil, de consumo rápido e completamente ausente de qualquer objectivo ou mensagem que não seja a de produzir um objecto consumível por toda a família e específico para o mercado americano (pelos gags e referências).

Não digo que os estúdios americanos devam deixar de produzir este filmes mas este não me serve as medidas e na verdade os únicos filmes que aprecio por Sandler é o Embriagado de Amor do Paul Thomas Anderson (que lhe valeu uma nomeação para um globo de ouro) e a Terapia de Raiva onde contracena com um magistral Jack Nicholson.

Este filme resume-se rapidamente. A personagem de Sandler é um conquistador inveterado que se apaixona pela personagem interpretada por Drew Barrymore e é retribuído nessa afeição. O problema é que esta revive o mesmo dia desde que teve um acidente um ano antes - não guardando qualquer memória mais que as horas de um dia. O restante é tudo menos inesperado.

Visto no autocarro entre Bratislava e Praga

Enlace | http://www.imdb.com/title/tt0343660

FOOLS GOLD



Este filme começa com uma cena hilariante da destruição involuntária de um barco de pesquisa arqueológica pelos seus próprios ocupantes enquanto pesquisavam artefactos presumivelmente de um galeão espanhol no fundo do mar. Mas a partir daí o filme descamba para algo sensaborão e insípido confrontando Matthew McConaughey e Kate Hudson como casal desavindo, explorando essa incapacidade de convivência de meio de vida entre o par até à previsível conclusão.

Dispenso. Sugiro que a cena inicial se tornasse uma curta só por si, é um segmento que valeria bem essa dedicação.

Visto no autocarro entre Bratislava e Praga

Enlace | www.imdb.com/title/tt0770752