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11 de nov. de 2008

CIGARETTE

Outra das curtas de Condorcet que encaixam dentro da (sua) ideia de Dogma 95 e que não se encontraram por aí em festivais de PT - prova de que há muito material interessante que circula de mão em mão falando-se de boca em boca e que nunca passa para uma tela maior do que a pantalha das casas de amigos e curiosos que vai encontrando.

O filme não é Dogma porque lhe falta o cumprimento a muitos dos cânones (cumpre a recusa a iluminação artificial mas recorre depois a acontecimentos fictícios - como o assassinato de um dos protagonistas, não possui a continuidade em tempo real preceituada e desconfio também que a utilização de bw é contrária ao Dogma 95) mas não deixa por isso de ser interessante, só não etiquetável como tal.

É um videoclip sem música, é cinema com cigarro, fumo, sexo e morte, é uma curta sobre o excesso, sobre o hedonismo e sobre o vício. Sinful é a marca de cigarro que a femme fatale deixa cair quando se afasta do local do crime depois de uma noite com o seu amante de ocasião. A beleza de uma curta é deixar-nos por vezes demasiados caminhos para que os trilhemos: seria realmente um amante de ocasião? Aquele último cigarro vem depois do prazer da morte acrescendo ao prazer do cigarro pós coital? Preenchemos nós os vazios que nos apresentam? Construímos sempre também a nossa própria história?

visto nas LOFF Sessions do MAL, Nov de 2008

A CASA E A ESCURIDÃO

Hoje compreendo os rios.

A idade das rochas diz-me palavras profundas.

Hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

A última das curtas de Condorcet que tinha aqui comigo para ver faz tempo e que fui adiando da mesma maneira que se adia tudo o resto: com a esperança de amanhã o realizar. Este é dos melhores filmes que lhe vi pela complexidade exposta que se baseia em texto de José Luís Peixoto e aqui completada com imagens e sempre narrada evoluindo com essa como se fora videoart. Belíssimo - pudesse o dvd que me chegou às mãos estar em melhor estado e conseguiria apercebê-lo todo, será uma das poucas cópias que por aqui circulam.

visto em sessão contínua de catarse cinéfilo de domingo, pudessem todos os DVD dizer: estou vivo, funciono!

24 de ago. de 2008

A ESCOLA DOS CARTEIROS

A Escola dos Carteiros serviu também de escola para o posterior Jour de Fête que vi em complemento a este e em que Tati espraia todas as suas capacidades como mimo e animador. Este A Escola, de 1947, serve como treino para o filme maior e recai nas atribulações e trapalhadas da personagem do carteiro François, maravilhosamente preenchida de gestualidades patarecas por Tati. As cenas mais hilariantes são a do treino dos carteiros, com bicicletas amarradas ao chão dentro da estação central, em que François pede um copito após ouvir sermão sobre a necessidade de maior velocidade na entrega e a cena final com a sacola cheia de cartas a ser levada por um avião. Esta curta é linda, imperdível!

14 de ago. de 2008

VERDADE OU CONSEQUÊNCIA

Outra das curtas de Condorcet que se rege pelas normas do Dogma. 4 de 6 das que vi - verei as restantes já já. Não consegui encontrar qualquer referência a esta obra online, nem no omnisciente IMDB me safei, por isso aproveito para postar a obra de Eduardo Condorcet disponível nesse site : Eduardo Condorcet no IMDB.

Em Verdade ou Consequência, um jogo que se joga na vida jogando com segredos de vida que se pretendem revelar mas não se partilham de facto, torna-se um jogo violento. Um choque entre o querer e o poder, entre o grito e o medo da expectativa da revelação, entre a revolta e o conformismo revelado.

Este é o filme do oprimido, em que o herói é esmagado por todos e apenas por si. É um herói fraco que odiamos por não se revelar mas que ao mesmo tempo acompanhamos a dor de querer ser o que todos querem que seja, uma ideia de, uma ideia. E é sob esta ideia de ser algo que não é, que permanece, levando-nos a um simultâneo amor-ódio que lhe vamos sentindo. E é um filme sobre a realidade, a realidade da discriminação, sobre a intolerância perante uma relação amorosa minoritária - uma relação homossexual e o odioso conformismo que se vai estabelecendo sem resolução. A compreensão poderia existir mas o novelo nunca é desenrolado - permanece após toda a tensão do jogo a situação que já existia.

As interpretações são capazes e bastante credíveis na sua constante frustração - a fotografia razoável e o trabalho de edição, sobretudo o trecho inicial, muito interessantes. Não é tramado qualificar seja o que for na expectativa que nos acreditem? Vejam e comentem.

Uma curiosidade ao anteriormente referido Máscaras do mesmo director - a personagem central, Ralf é protagonizada pelo mesmo actor que faz de primeiro médico assistente, Dr Wagner, da mãe comatosa no enternecedor Good Bye Lenin! de Wolfang Becker.

Visto algures em jeito esquecido e deleitoso.

12 de ago. de 2008

MÁSCARAS

Masken (no original alemão) :: http://www.imdb.com/title/tt0411633 :: é mais uma curta do realizador conimbricense Eduardo Condorcet incluído no Dogma 95, linha dogmática postulada por Lars von Trier e Thomas Vinterberg e que segue assim :

1. As filmagens devem ser feitas no exterior. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

3. A câmara deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos - ou a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmara está colocada; são as filmagens que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).

4. O filme deve ser a cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmara).

5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6. O filme não deve conter nenhuma acção "superficial". (Homicídios, Armas, etc. não podem ocorrer).

7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (Isto significa que o filme se desenvolve em tempo real).

8. São inaceitáveis os filmes de género.

9. O filme deve ser em 35 mm, padrão.

10. O nome do director não deve figurar nos créditos.

Deixo para depois o enquadramento no Dogma 95 de todas as curtas deste realizador que são rotuladas como seguindo esses cânones - das 6 que os seguem vi 4.

Máscaras é a afirmação de que todos carregamos uma máscara - invariavelmente - mas também a percepção de que é esse esconder constante das nossas reais ambições que nos achincalha. Mesmo o mais suave esconderijo privado é uma camuflagem que usamos e carregamos neste teatro da vida. É na ténue resistência a um olhar mais profundo, a um deixar cair a máscara completamente que reside um quotidiano de que nem todos temos a consciência de ser castrador.

A consciência alargada, um acumular de constrangimento, uma angústia pesada, vai crescendo vai crescendo, cresce, até implodir até explodir. A personagem central do filme segue esse caminho acumulativo até à explosão final em que expõe tudo o que foi guardando enquanto homem amargurado. O ensinamento a tirar disto tudo é que as vidas não poderão voltar a ser as mesmas, para o pior ou melhor, seja isso o que for na cabeça de quem lhe fizer sentença - mas que a catarse de Ralf foi a necessário isso sim, é inquestionável.

Neste sólido filme de alcova colado ao Dogma destacam-se as interpretações extremamente credíveis e apetece-me dizer que as máscaras sobrevêm e não tão só no Carnaval.

Filme visto em deleite de tarde de casa - o meu sofá é o melhor cinema num Domingo ao crepúsculo de Lisboa.

23 de jun. de 2008

MÁ FILA

Realizada por Chuenmenkin, Francisco Antunez com Carlos Pedro Santana esta curta vai crescendo e surpreendendo a cada novo capítulo desenrolando o novelo deste sucedâneo de Reservoir Dogs rodado no exterior [Reservoir Dogs, Cães Danados, Tarantino].

A excelente BSO tempera este pequeno thriller- road-still-movie em que o melhor é o twist final.
Identifico o titulado com a personagem feminina do quarteto protagonista (3 criminosos e o raptado, o primeiro ministro de quem nunca vemos a cara). A vingança encomendada poderia ser uma nossa agora? Algum presságio, algum esquema?

Site da produtora U-HU FAZ MISSO! FILMES
http://www.myspace.com/uhufazmissofilmes

Com correcção via Francisco Antunez (Co-realizador, argumentista, produtor e autor da ideia original da peça). Obrigado.